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ConFUSÃO harmônica

   Tue, May 15, 2007 - 11:45 AM
Pequena História do Estilo Tribal

O estilo tribal evoca uma história de milhares de anos sobre trajes, jóias, dança e música do Oriente Médio, com uma essência moderna, enfatizando a força do corpo e do espírito feminino, e sua interação com o grupo.
Os "primeiros passos" dessa forma de dança foram dados na Califórnia, pela bailarina Jamila Salimpour. A Dança do Ventre tradicional foi acrescida de elementos das danças folclóricas orientais, como seus objetos e passos característicos, e o espírito comunitário das tribos. Trocaram o vestuário do estilo "cabaré" (as conhecidas roupas de lantejoulas!) por um visual étnico.
Aliado a isso, vinha o novo estilo de ensino, onde Jamila refinou a técnica da Dança do Ventre usando métodos semelhantes aos do Ballet Clássico. Sua companhia de dança, Bal Anat, popularizou a nova tendência, principalmente os trajes étnicos. A dança tinha um caráter interpretativo, com uso de acessórios tradicionais das danças folclóricas ou uma releitura de lendas orientais, como por exemplo, as nossas conhecidas Dança da Espada e Dança do Punhal. Estas duas danças não são reconhecidas nos países árabes como folclóricas, mas são conhecidas por todas as bailarinas de Dança do Ventre, graças ao Estilo Tribal.
Nos anos setenta, notáveis dançarinas do gênero fizeram com que este estilo ganhasse o país, entre elas Masha Archer, discípula de Jamila.
Nos anos 80, o estilo ganhou características muito particulares, que foram definidas quase como "padrões", com o surgimento da trupe Fat Chance Belly Dance. Carolena Nericcio, diretora do grupo, foi aluna de Masha e dá todo o crédito pelo surgimento desse novo estilo à Jamila, embora seu grupo seja, hoje em dia, a maior referência do assunto nos E.U.A.. Carolena misturou a precisão técnica de Jamila, o caráter étnico do Bal Anat e aplicou seu sistema de improvisação, criando assim uma nova forma de dança.

O Estilo Tribal Hoje

Precisão dos movimentos, trajes muito característicos e o espírito de irmandade tribal são a marca registrada desse gênero. Ritmos fortes e bem marcados, com muita percussão, solos de derbake e daffs, os sons "Ghawazee" (as Ciganas Árabes, a fonte maior de inspiração dessas trupes), a fusão entre diversos estilos musicais, por vezes com um toque ocidental, dominam o padrão musical que acompanha esta dança.
O visual do Estilo Tribal parece autêntico porque foi inspirado em várias tribos e povos nômades do Centro e Norte da África, Índia, Paquistão e de várias outras regiões do Oriente Médio, adaptadas às necessidades das dançarinas, que precisam de roupas que lhes dê mobilidade e conforto.
O uso freqüente de snujs em suas performances também caracteriza o estilo. Eles servem não só para demonstrar as habilidades técnicas das dançarinas, mas também para auxiliar a marcação dos ritmos. Além deles, as bailarinas fazem uso de chocalhos kuchis (chamados Kulkaal), atados aos pés, como as dançarinas indianas ou as ghawazee egípcias, também para demarcação rítmica. Algumas trupes utilizam outros acessórios característicos de outras danças orientais, como pandeiro, bengala, jarros, cestos, taças, espadas, punhais, para realizarem performances que são chamadas tribais interpretativas.
O Fat Chance Belly Dance, por ser o pioneiro no estilo, é o mais conhecido e reverenciado grupo tribal da América, mas há outras grandes trupes espalhadas pelos E.U.A, como a Romani Dance, Awalin Trupe, Read my Hips etc. O Estilo Tribal Americano já atravessou Oceanos e chegou à Alemanha, Suíça, Austrália e até mesmo ao Japão, e está começando a aparecer na França, Inglaterra e Brasil.


Estilo Neo Tribal

Coma evolução e propagação da Dança Tribal na América do Norte, novas cias. de dança auxiliaram no processo de formação do Estilo, dando, cada uma, seu toque pessoal às características tradicionais do American Tribal Style. Surgiu então, no início dos anos 90 o que hoje ficou conhecido nos EUA por Neo Tribal.
O Neo Tribal seria a modernização do Estilo Tribal Americano do Fat Chance Belly Dance. Bailarinas formadas pelo método de Carolena Nericcio e suas discípulas resolveram buscar novas formas de utilização das técnicas do Estilo Tribal, sem uma rigorosidade padronizadora. Cias. mais tradicionalistas no América Tribal Style recusam-se a utilizar recursos coreográficos e todas as suas performances são livres ou reguladas pelos métodos de sinalização,gerando a Improvisação Coordenada.
Cias. como a Awalin Dance Company de Zia Ali, na Geórgia, Atlanta, traduzem bem este espírito Neo Tribal: aliam às técnicas de Improvisação Coordenada às possibilidades artísticas coreográficas.
Ademais, além do uso dos acessórios da dança do ventre e danças folclóricas orientais, buscam inovações não apenas em acessórios, mas na utilização de movimentos oriundos de outras danças, além das habituais, como o flamenco, a dança indiana, danças persas, purcas, paquistanesas, e de regiões até mais longínquas como, por exemplo, o Tajisquistão.
No Brasil, A Cia. Halim aderiu a esta nova corrente e mantém as técnicas tradicionais do American Tribal Style aliadas ao espírito inovador do Neo Tribal, buscando em diversas formas de dança, até mesmo no Ballet e na Dança Contemporânea Ocidentais, uma nova forma de dançar e se expressar.
No Nordeste, a Cia Lunay traz uma proposta de unir as danças afro-brasileiras a todos esses ingredientes já citados quando o assunto é estilo tribal. Com o desenrolar dos estudos e pesquisas, a Cia Lunay foi descobrindo semelhanças entre os ritmos orientais e ocidentais.

Oriente, África e Nordeste no corpo do estilo tribal brasileiro.

O músico e percussionista João Cassiano foi buscar na música afro-brasileira e regional, os ingredientes que conferiram um colorido e um sabor especiais à musicalidade oriental tão comum e necessária para a dança do ventre, resultado de uma pesquisa de ritmos iniciada em 2005 com a bailarina e professora de dança do ventre Kilma Farias.
Se bem observarmos, o nordeste do Brasil guarda uma similaridade muito grande com o oriente, mais precisamente com as regiões próximas ao Saara. Não só pelo clima, que é um fator determinante para seus habitantes, mas pelo modo como pensam e vivem.
Nas duas tradições, oriental e ocidental, o povo aprendeu a desenvolver a fé, a religiosidade e a utilizar a água, a terra o fogo e o ar como parte natural desse processo intenso que é estar no mundo. Mas se há contato com o sagrado, também há com o profano através das festas, das feiras, da algazarra das lavadeiras à beira de um rio.
Muito da cultura brasileira teve influência (indireta) dos mouros, uma vez que os mesmos dominaram a Península Ibérica durante vários anos. A influência moura pode ser sentida em aspectos musicais como o som da viola dos repentistas, ritmos como coco, baião e ijexá, e instrumentos como pandeiro, zabumba e berimbau. A influência na música é nossa principal fonte de inspiração para este espetáculo.
Diante dessa observação, iniciamos um trabalho de fusão das músicas árabe e egípcia com a nossa tão variada música brasileira, em especial a regional nordestina que muito agrega da afro-brasileira e, mesclando ritmos como o baladi do Egito e o coco da Paraíba, fomos delineando um novo horizonte de ritmos e expressões.

De onde vem o baião?

É verdade que o baião é um ritmo tipicamente brasileiro. Mas, se formos procurar entender as nossas raízes culturais, vamos descobrir que o ritmo que conhecemos como baião vem de lugares beeeeeeeeem distantes, pra lá das arábias.
Vamos voltar um pouquinho na nossa história para responder essa pergunta: a influência moura chegou ao Brasil por meio dos colonizadores portugueses, já que a Península Ibérica esteve sob domínio árabe durante oito séculos. Foi importantíssima a influência dos árabes na formação das modernas nações ibéricas ou delas provenientes.
O soudi é um ritmo do Golfo Pérsico muito semelhante ao baião, pra não dizer idêntico. Mas como veio o baião nascer aqui em terras tropicais? Para ser mais específico, no nordeste brasileiro.
Esse capítulo da história deixou influências profundas na cultura brasileira, principalmente no nordeste, já que a maioria dos judeus se concentravam em Pernambuco e Salvador. Por isso, a língua, os costumes, a culinária, a dança e a música possuem, em sua genética, a cultura oriental.
Como também recebemos heranças valiosas dos negros africanos e dos índios locais, o resultado acabou sendo uma mistura arretada. Assim, como quem costura uma colcha de retalhos, músicos extraem sons com cheiro de mirra e sândalo, mas também de cravo e canela.

ConFUSÃO harmônica

A cadência-dominante-tônica, típica da Música Ocidental é bastante presente na música nordestina, facilmente percebida nos aboios, e nos sons da viola e da rabeca.
Os ritmos também guardam semelhanças. Um expressivo exemplo é o samba de coco de Arcoverde, da cidade do sertão pernambucano Arcoverde, que tem a mesma cadência do malfuf ou laf, ritmo egípcio bastante utilizado na música síria e libanesa.
O ijexá, ritmo africano utilizado nas festividades e celebrações do candomblé de rua, também tem forte semelhança com o karatchi, ritmo do norte da Árfica que é bastante utilizado para a dança do ventre.
O ijexá toque de Angola, utilizado nas rodas de capoeira é idêntico ao ayubi, ritmo utilizado para a dança de transe oriental chamada zaar.
O resultado dessa mistura de especiarias é uma harmonia belíssima entre oriente e ocidente, num encontro perfeito entre passado e presente.
Os ingredientes estão todos aí. É só colocar tudo no grande caldeirão, com bastante equilíbrio.



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